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Arquitetura de segurança · Análise

A semana em que a guerra travou e a decisão foi para Nova York

O movimento da semana em Segurança: dez dias sem ataques americanos anunciados contra o território do Irã, a frente ativa deslocada para o mar Vermelho, a lei Graham em vigor e a missão da ONU registrando indícios de crimes dos dois lados. Sem acordo assinado e sem data para Salalah, a semana terminou com os vistos do presidente iraniano aprovados para a Assembleia Geral da ONU, que abre na terça-feira.

Por COMPASSO19 de setembro de 2026atualizado em 21 de setembro às 3h0013 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. A pausa militar mais longa desde agosto não tem documento que a sustente: dez dias sem ataques americanos ao Irã convivem com petroleiros atingidos e com a reunião de Salalah adiada sem data.
  2. A guerra mudou de endereço na semana: foram cerca de 300 ataques sauditas contra os houthis, e só cinco navios carregados da Arábia Saudita saíram por Bab el-Mandeb, contra dezenas por dia antes.
  3. É fato que Washington aprovou os vistos do presidente iraniano para a ONU; é leitura possível, não fato, que a Assembleia Geral abrigue a negociação que Salalah não conseguiu marcar.

Atualização, 19h32. A guerra chegou neste sábado à capital saudita. Os houthis, o grupo iemenita aliado do Irã, afirmaram ter disparado mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones contra alvos em Riade e contra instalações da Aramco, a petroleira estatal saudita, em Yanbu, no mar Vermelho. A reivindicação foi feita pelo porta-voz militar do grupo, Yahya Saree. Uma coluna de fumaça negra subiu do depósito de combustível do aeroporto internacional King Khalid, em Riade, segundo o Washington Post, o jornal americano, e a NBC News, a rede americana de notícias.

Na versão do governo saudita, dada pelo porta-voz da coalizão militar, o general Turki al-Maliki, a defesa aérea interceptou um míssil balístico disparado contra Riade e barrou os ataques a Taif, Bisha, Farasan e Yanbu. O registro é do Middle East Eye, o site britânico de notícias sobre o Oriente Médio. Bombeiros apagaram o fogo em um tanque de combustível da Aramco no aeroporto. O rastreador de voos FlightRadar24 marcava para Riade o nível máximo de interrupção, com atrasos longos e voos cancelados.

O fato muda a leitura da frente do mar Vermelho descrita abaixo. No dia 8, os alvos houthis foram cidades do sul saudita, com 73 feridos, como o COMPASSO registrou naquele dia. Agora os alvos declarados são a capital e Yanbu, o porto onde termina o oleoduto Leste-Oeste, em reparo. É leitura possível, não fato, que o grupo queira encarecer cada dia sem acordo na semana da Assembleia Geral da ONU. Na conta dos fatores, a Arábia Saudita perde poder de barganha, porque as duas saídas do seu petróleo passam a depender de defesa antiaérea. A renda de escassez segue com o dono de recurso fora do alcance dos mísseis.

Atualização, 2h45. O dia do primeiro ataque à capital saudita terminou sem registro de vítimas. O despacho da madrugada da Associated Press, a agência americana de notícias, não relata feridos em Riade nem nas outras cidades atacadas. O incêndio no depósito de combustível do aeroporto, descrito às 19h32, foi apagado. O tráfego aéreo da capital começou a se normalizar ainda à noite, segundo o rastreador de voos FlightRadar24, no registro da CNBC, a rede financeira americana. Os houthis afirmaram que a operação respondeu às tentativas sauditas de atacar Sanaa, a capital iemenita que o grupo controla. A versão é do porta-voz militar Yahya Saree, no Middle East Eye, o site britânico de notícias sobre o Oriente Médio. Nenhuma retaliação saudita a Sanaa tinha sido anunciada até as 2h30 de Brasília. O balanço confirma o registro das 19h32: o custo do dia ficou na defesa antiaérea e nos voos atrasados, não em vidas. A capital saudita segue como alvo declarado do grupo na semana em que a Assembleia Geral da ONU decide o rumo da guerra.

Atualização, 3h00. O Irã formalizou no domingo as condições para negociar. Mohsen Rezaei, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, disse que sete condições foram entregues ao governo americano por mediadores do Catar. O registro é da Press TV, a TV estatal iraniana em inglês, e da agência estatal IRNA, em despacho reproduzido pelo GlobalSecurity, o site americano de análise militar. Três são públicas: fim da guerra em todas as frentes, liberação dos fundos congelados e fim do bloqueio naval. No mesmo dia, o comando militar central iraniano afirmou ter informações de que Washington prepara um ataque novo e prometeu resposta "contínua, efetiva e dolorosa" contra bases americanas na região, segundo o Haaretz, o jornal israelense. A pausa descrita abaixo segue de pé, no 12º dia sem ataque americano anunciado contra o território do Irã, na contagem do GlobalSecurity. Agora, porém, há um documento de posição de um lado e um aviso de guerra do outro.

Trump disse à Fox News, a rede americana de notícias, que "provavelmente estaria aberto" a encontrar o presidente iraniano Masoud Pezeshkian em Nova York, segundo o Gulf News, o jornal dos Emirados. Nenhum encontro está confirmado. O calendário oficial da ONU marca a abertura do debate de líderes para esta terça-feira, dia 22, com Trump entre os primeiros oradores e Pezeshkian na quarta; o texto abaixo dizia dia 23, e a data foi corrigida. A delegação iraniana terá circulação restrita ao hotel e à sede da ONU, por decisão do Departamento de Estado americano, no registro da Fox News.

No mar Vermelho, a frente ativa não parou no fim de semana. O porta-voz militar houthi afirmou que a Arábia Saudita fez 28 ataques aéreos em 24 horas contra Taiz, Marib e Al-Jawf, e elevou a 760 a sua contagem acumulada da escalada, segundo a IANS, a agência indiana de notícias. É a contagem de um dos lados, sem confirmação saudita. Para a leitura do texto, o domingo aponta na direção que a semana já apontava: a decisão migrou do campo de batalha para Nova York. A pergunta deixou de ser se haverá negociação; passou a ser se Trump responde às condições iranianas.

Ilustracao editorial escura: um estreito vazio ao anoitecer, com um unico feixe vermelho tijolo cruzando a agua

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã chegou neste sábado ao dia 204 com um desenho que nenhuma semana anterior tinha mostrado. Nenhum ataque americano ao território iraniano foi anunciado em dez dias, na contagem do serviço de acompanhamento militar GlobalSecurity até quinta-feira. É o intervalo mais longo desde agosto. Nada, porém, foi assinado. A reunião de Salalah, que apresentaria uma rota temporária para o estreito de Ormuz, segue adiada sem nova data, como o COMPASSO registrou na segunda-feira. E o fogo mudou de endereço. A frente ativa da semana ficou no mar Vermelho, entre a Arábia Saudita e os houthis, o grupo iemenita aliado do Irã.

O sinal mais concreto veio de um documento de viagem. Os Estados Unidos aprovaram os vistos de Masoud Pezeshkian, o presidente do Irã, e de Abbas Araghchi, o chanceler, para a Assembleia Geral da ONU. O debate de líderes abre na terça-feira, dia 22, em Nova York. O registro é da cobertura ao vivo da CBS News, a rede americana de notícias. Donald Trump planeja encontrar líderes dos países do Golfo na mesma semana, segundo a mesma rede. Depois de sete meses de guerra, os dois presidentes estarão na mesma cidade, com agenda pública.

A pausa que ninguém assinou

A semana confirmou a fase que o COMPASSO descreveu na quinta-feira: menos mísseis, mais vigilância. O petróleo saudita voltou a cruzar o estreito com escolta militar americana, em transferências de navio a navio. Os balanços militares registravam na quinta o décimo dia sem ataques americanos anunciados contra o território do Irã. A pausa não é limpa. Um petroleiro foi atingido por um projétil na quarta-feira, ao sair do Golfo. Outro foi atingido na madrugada de sexta, com incêndio controlado e tripulação a salvo, segundo a CBS News. A Guarda Revolucionária iraniana reivindicou o ataque a um navio de bandeira do Togo, por uma travessia que chamou de ilegal.

As falas de Trump mediram a ambivalência americana. Na quarta, o presidente disse que a guerra está, em tradução do inglês, com sorte, perto do fim. Na quinta, disse ao site americano Axios que tem diante de si uma grande decisão: aniquilar ou não o regime iraniano. E completou que qualquer coisa pode acontecer. As duas frases estão na cobertura da CBS News. É fato que os vistos foram aprovados e que os ataques ao território iraniano pararam. É leitura possível, não fato, que a Casa Branca esteja escolhendo entre negociar em Nova York e escalar de vez.

O mar Vermelho vira a frente ativa

Enquanto o estreito esfriava, a segunda saída do petróleo esquentou. Os houthis, que controlam Bab el-Mandeb desde o dia 11, tomaram na segunda-feira as ilhas de Hanish Maior e Hanish Menor, 160 quilômetros ao norte do estreito, como o COMPASSO registrou na abertura da semana. A resposta saudita virou rotina de guerra. O grupo iemenita contou 26 ataques sauditas em 24 horas até sexta, e cerca de 300 na semana, segundo a NPR, a rádio pública americana. Não há verificação independente dessa contagem.

O preço do controle houthi apareceu no tráfego. Só cinco navios sauditas carregados deixaram Bab el-Mandeb na semana, contra uma média de 35 a 40 por dia antes da guerra, segundo a CBS News. A Aramco, a petroleira estatal saudita, suspendeu os fornecimentos de outubro para clientes da Europa e da Índia. O oleoduto Leste-Oeste, atingido por drones no dia 10, deve recuperar metade da capacidade em dias e o total em cerca de seis semanas, segundo a agência financeira Bloomberg. E a conta humana cresceu: cerca de 3.000 refugiados iemenitas chegaram a Djibuti nesta semana, pela mesma CBS News.

A guerra ganha lei, veto e processo

A disputa também andou por escrito. A missão de apuração de fatos sobre o Irã, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, reportou na quinta motivos razoáveis para crer em crimes de guerra americanos. Entre eles está o ataque que destruiu uma escola em Minab, com mais de 150 mortos. O mesmo relatório classifica a repressão iraniana aos protestos como crime contra a humanidade, como o COMPASSO registrou na quinta-feira. No Conselho de Segurança, Rússia e China vetaram a resolução que prorrogaria o painel de peritos das sanções ao Irã, por 11 votos a 2.

Na sexta às 19h01 de Brasília, Trump assinou a lei Graham, aprovada pelo Senado por 86 votos a 11. Ela obriga o presidente a impor, em até 30 dias, tarifas de até 100% sobre os cinco maiores compradores de petróleo e gás russos, com Índia e China à frente, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. A Índia respondeu em nota formal que tarifas adicionais danificariam a relação comercial, segundo o site indiano Outlook. A punição muda de alvo: sai de quem é sancionado e passa a quem compra dele. E a Rússia atravessou a semana abrindo três dias de votação parlamentar, com quase 1.300 observadores barrados, sob os mesmos mísseis que atingiram Kiev na quinta.

A conta da semana se faz por fator de produção. O recurso natural fora da zona de guerra segue capturando a renda da escassez: o barril saudita que atravessa sob escolta vale mais sem custar mais, e o barril iraniano segue sem comprador. O capital que controla navio, seguro e refino cobra a fatia nova de cada travessia vigiada. O trabalho paga em prestações, no diesel e no frete, e no limite paga com a vida, na contagem de marinheiros mortos que a agência da ONU para a navegação mantém desde o início da guerra. O Estado americano quase não arrecada nesse arranjo, e fica com o que mais vale nele: decidir quais navios passam. É apropriação concentrada, de poucos donos de recurso e de rota, com perda difusa de todos os importadores. A pausa militar não devolveu o grau de liberdade que a guerra tirou: a travessia segue dependendo de decisão, não de regra comum.

O placar da semana

Dez dias sem ataques americanos anunciados contra o território do Irã, e oito sem mísseis balísticos iranianos contra países que abrigam bases americanas, na contagem do GlobalSecurity até quinta. Cerca de 300 ataques sauditas contra os houthis em uma semana, na contagem do próprio grupo, segundo a NPR. Dois petroleiros atingidos no estreito, na quarta e na sexta, segundo a CBS News. Cinco navios sauditas carregados saíram por Bab el-Mandeb na semana, contra 35 a 40 por dia antes da guerra. O custo dos ataques iranianos às bases americanas chegou a 33,4 bilhões de dólares, no relatório do inspetor-geral do Pentágono que o COMPASSO registrou na quarta-feira. E o Brent, o barril de referência internacional, fechou a 103,87 dólares, com queda de 1,2% na semana, segundo o Trading Economics, o serviço de dados de mercados.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, a semana de pausa valeu um alívio pequeno e condicionado. O barril caiu 1,2%, mas segue acima de 100 dólares, e a gasolina interna está travada por um corte de tributos que vence um dia depois do primeiro turno. O frete e o seguro de guerra seguem encarecendo o diesel importado. A lei Graham abre um risco novo: parte do diesel que o Brasil compra vem da Rússia, e a tarifa americana sobre os grandes compradores pode realocar esses fluxos e mexer no preço. E o petróleo de guerra é o motivo do aperto global de juros que apertou o câmbio brasileiro nesta semana, como mostra o texto de sexta. No jogo do excedente, a semana deixou uma pergunta aberta: se a Assembleia Geral produzir negociação, a renda da rota volta a ser repartida por regra; se não produzir, segue repartida por decisão militar.

Entenda o contexto

A guerra começou em 28 de fevereiro, e o estreito de Ormuz está fechado à navegação comum desde o início de março. Por ali passava cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, segundo a EIA, a agência americana de estatísticas de energia. O fluxo caiu de 21,6 milhões de barris por dia no fim de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre. Bab el-Mandeb, a saída sul do mar Vermelho, era a rota de desvio, e subiu de 5,4 para 8,1 milhões de barris por dia no mesmo período. Desde a semana passada, as duas saídas dependem de decisão militar, como o COMPASSO registrou no balanço anterior. A escolta de petroleiros tem precedente: entre 1987 e 1988, na guerra entre Irã e Iraque, os Estados Unidos escoltaram navios do Kuwait pelo mesmo estreito.

Fontes

CBS News (a cobertura ao vivo: vistos, petroleiros atingidos e as falas de Trump) · NPR (a semana houthi no mar Vermelho e os 300 ataques sauditas) · Congresso dos Estados Unidos (a lei Graham, documento primário) · Inspetor-geral do Pentágono (o relatório de custo dos ataques, documento primário) · Nações Unidas (o veto ao painel de sanções, documento primário) · Izvestia, em russo (o primeiro dia da votação russa) · Al Jazeera (o adiamento de Salalah) · Outlook India (a reação indiana à lei Graham) · Trading Economics (o fechamento do Brent) Os outros textos do dia: A semana em que o petróleo voltou a andar, mas só com escolta · A semana em que o mundo rico subiu o juro e o Brasil cortou · A semana em que o ritmo da IA ganhou três lados em público · Eleição 2026: a semana pende a Flávio e termina empatada · Clima: ar, oceano, gelo e safra fecham a semana no mesmo sinal.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.